terça-feira, 30 de outubro de 2012

Amores solúveis.


Enquanto ela partia em seu barco de papel, ele a observava do pier. Aquele mesmo lugar onde tempos atrás os dois se encontram e trocaram juras de amor.
Ele percebeu que as diferenças entre os dois eram maiores que o amor que diziam sentir um pelo outro. E de certa forma, pra ele, não vale a pena ficar com alguém sem poder modificar a pessoa em prol de sua própria felicidade.
Ela, em seu barco solúvel, via a imagem dele se afastar cada vez mais. E lembrou de todas as vezes se renunciou daquilo que acreditava para faze-lo feliz e de todas as vezes que se calou para que ele pudesse falar. E que quando não concordava com algo, apenas sorria para não contesta-lo. Ela não era submissa, apenas o aceitava como era e sabia que um lado sempre deveria ceder, porque quando o amor é verdadeiro, sempre se cede, sempre se aceita, sempre se releva.
Ele, sem lágrimas nos olhos, via a ida dela como uma ida necessária.
Ela, com os olhos marejados, pensou que aquele amor foi único enquanto existiu. E que ela não vive momentos, vive amores.


Elmo.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Permita-se.

Quantos de nós não buscamos na vida a sorte de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida?
Para alguns, o amor é uma necessidade. É a cocaína que alegra de imediato e deixa a sensação de vazio no dia seguinte. A necessidade de amar e ser amado para alguns é tão vital quanto respirar. Para outros, a necessidade de ser amado é muito maior do que a de amar.
Será que estamos nos permitindo amar e ser amados? Ou será que apenas queremos alguém que nos ame para que possamos nos sentir importantes?
Todos nós sonhamos, planejamos, desejamos o amor, mas será que estamos realmente abertos a isso? Ou será que perdemos tempo demais selecionando as pessoas conforme as perfeições, muitas vezes, que só existem pra nós mesmos?
Precisamos nos permitir mais. Deixar que o amor entre de verdade na nossa vida, sem amarras, sem preconceitos, sem ser tão... seletivo!
Muitas vezes aquela pessoa que você acredita que não vai lhe oferecer nada, só porque não tem o seu tipo físico ou algo assim, pode ser a pessoa que reúne tudo que você procura em alguém. Pode ser o alguém de verdade que você tanto procura.

Seja feliz de verdade! Permita-se!!!!!!!


Por: Elmo Ferrér

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Conjunturas desconjuntas.


07:00hs AM.

           Toca o despertador interno, duas horas após ter conseguido pegar no sono após uma noite fria, de cigarros, vinhos, música, pensamentos.
Abro a janela e mal dá pra ver o quintal lá fora, coberto por névoa. Sem me preocupar com o frio que assola o mundo, faço meu café amargo, acendo meu cigarro e vou.
O banco de madeira molhado, as gotas de orvalho caindo das flores adormecidas. Um raio de sol triste entra em meio a vida que dorme ali naquele quintal.
Uma vida se desfaz aos poucos, começando internamente e a qualquer momento, fisicamente.
Eu decidi que será assim. Assim serão meus últimos dias.
Pensei muito antes de decidir como aproveitar os momentos que me faltavam. Rejeitei de imediato a ideia de que passar os instantes ao meu lado não seria boa. Mas ao mesmo tempo, a certeza de que neste momento não haveria pessoa melhor para estar comigo do que eu mesmo me confortava. Afinal, ninguém merece acompanhar de perto o definhar de um ser.
Esta morte lenta não é circunstancia de nenhuma doença incurável. É apenas a decisão mais certa a ser tomada.
Vejo mais um raio de sol tomando o branco do quintal e penso nas coisas que eu disse sem querer disser. E quantas coisas causei sem querer causar. Fui vilão e mocinho. Ora fui um mosaico de todas as coisas que recebi, ora um espelho refletindo a verdade do que eu realmente sou.
Ah, eu amei. Amei com vigor, amei com a força de um raio de sol que invade a manhã nebulosa sem se importar, sem se medir, sem se guardar.
Amei e uma grande parcela de amor foi destinada ao desprezo, a pessoas que receberam tudo que eu tinha pra dar como quem fuma um cigarro, me usando aos poucos, me queimando, me transformando em cinzas, me jogando fora quando de me restou o mínimo, o filtro solitário.
Eu me destruo aos poucos,brinco de ser destino e lanço a minha própria sina. Escrevo meu fim. Morro aos poucos esperando que um resto de vida dentro de mim resolva me salvar do que eu mesmo provoco. E seria mais fácil tentar mudar tudo? Deixar de ser eu e começar a agir de diferentes formas?
Mas deixar de ser eu não significa morrer? Agir de formas controversas a mim não é me matar aos poucos?
Por que não ficar só? Por que não escolher a verdade que preciso pra...viver?
Um e mais um e mais um e agora vários raios de sol invadem o espaço. O sol decidiu pelo sim, embora algumas vezes decida pelo não. Até a ele foi dado o poder de escolha.  Quando resolve se esconder por entre nuvens e chorar lágrimas ácidas que inundam cidades, ele assim o faz sem questionamentos. Por que eu não? 
Levanto-me e vou para dentro da casa solitária e fria, colocada como uma peça de Lego sobre o alto da montanha. 
Aqui ficarei esperando minha hora. Continuarei bailando e tomando vinho todas as noites até o sono chegar.Continuarei acordando quando a alma assim decidir. Continuarei indo ao quintal gelado até o sol interromper a melancolia que vivem as flores enquanto dormem. Continuarei, até a hora chegar.


Elmo.


segunda-feira, 16 de julho de 2012

O rapaz e seu apê 2x2.

Chego em casa e minha cadela me recebe com um beijo e uma rabada.
Tiro a roupas, acendo um incenso e me jogo no sofá!
Vinho, incensos e música.
É tão bom estar só!
As vezes uma lembrança ou outra vem a mente.
Vinho, incensos e música me ajudam a relaxar.
Daí vem você, de mansinho, invadindo os meus pensamentos.
E o gosto do vinho cada vez melhor.
Daí vem nostalgias (serão elas necessárias?)
O incenso invade o espaço.
Daí vem o coração batendo levemente. Conhecendo eu suas batidas já sei o que me dizem.
A música toma meus sentidos.
Daí vem o tona tudo que é preciso e tudo que pode ser deixado dentro do copo de vinho, tudo que pode virar cinza de incenso... tudo que pode virar música.
E tudo que sentiram virou música. E tudo que ouço veio do que já foi sentido por alguém.
É necessário sentir?
Sim. O vinho, o incenso, a música....tornam-se cada vez mais necessários.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Morar em si.


Sobre os dias em que não se deseja morar em si, não se ser, não se levar pra onde quer...

Dias nublados dentro de si, embora lá fora venha o sol dizer que o clarear lá está. Mas quando a lâmpada interna apaga, o breu toma conta e nem mil vaga-lumes são capazes de fazer voltar o brilho.

A ideia de fechar os olhos e esperar tudo passar parece boa. Mas, se os olhos não mais abrirem?

Vontade de pôr os pés no mar... vontade de pôr os pés nas nuvens. Vontades...!

Morar em mim não é simples assim, principalmente quando a minha realidade interna se depara com a externa. E então, percebo que o mundo que quero não é o que tenho. Que a casca que levo não é a quero. Que a vida que vivo não é minha!

Moro em mim, talvez por não encontrar um lar adequado para tão abstrata alma. 

Morar em mim... alugar-me por tempos indeterminados. Sou meu próprio vizinho chato que não me deixa dormir com as músicas altas tarde da noite. Sou o cão que late de madrugada, perturbando meu sono. Sou minha própria insônia.


Elmo.




segunda-feira, 25 de junho de 2012

Devo.

E mais uma vez eu vejo o sentimento ser ceifado. Sem dó nem piedade.
Como se ranca a folha de uma árvore. Como se ranca a folha de um caderno.
Como se ranca um coração?
Como se despreza o que se sente? E  o que se faz com o que sobra, o que fica, o concreto do líquido?
O que posso eu fazer?
Amanhã acordo às seis e a manhã será fria, como todas as outras...
Devo pegar toda essa lembrança e deixar na lixeira na frente de casa?
Devo pegar esta bacia de lágrimas e derramar na varanda?
Devo pegar o que você desprezou e que ainda está em mim e deixar que sai junto com a fumacinha que sai da boca pela manhã?
Devo o quê?
Devo acordar, tomar um banho, escovar os dentes e tomar um café bem quente e bem amargo.
Devo pegar um ônibus lotado, ouvir música e ficar alheio, pensando no que tenho... no que não tenho!
No que tenho do que é seu. Do que não tenho do que te dei.
Devo pensar e passar o dia pensando e quando tudo acabar, quando a hora chegar, devo pegar o ônibus de volta pra casa e devo tirar a roupa ao chegar, deixando-a espalhada pelo chão do quarto.
Devo tomar um banho e devo deixar as lágrimas escorrerem pelo ralo.
Devo me deitar e pensar e esperar  o sono chegar.
E devo acordar as seis no dia seguinte.
E devo fazer isso todos os dias até que a dor passe.
E se ela não passar?
Devo fazer tudo do mesmo jeito, pois a vida continua. Mesmo chata, ela continua!

Elmo.


domingo, 24 de junho de 2012

Sobre sorriso, raio de sol e outras coisas que não citei...

Então nós abrimos os olhos, movimento sincronizado, assim como quando falamos juntos ou pensamos juntos. Coisa de alma gêmeas.
Então eu percebi que você estava ao meu lado e que mais uma vez acordei com você.
E como é bom...
Então o raio de sol invadiu nosso quarto pela fresta da janela.
Então você sorriu  e o raio se fez tímido.
E então, luz!
Luz do seu sorriso em minha vida, abrindo as manhãs
trazendo ao coração a certeza de que, se não o calor do sol...
Ah! Seu amor me aquece...!

Elmo

Nada não.

Né nada não...
É só uma preocupação que bateu em mim, de saber como você está.
Você não sabe, creio que não, mas penso em você todos os dias antes de dormir.
E as vezes nem durmo, pra não parar de pensar.
Né nada não...
É só uma vontade de dizer a você tudo aquilo que você sabe,
mas que não foi suficiente...para que estejamos juntos hoje.
Né nada não...
É só uma vontade de ouvir ser riso bobo. É só vontade de falar besteira com você.
As besteiras que nos juntou.
Lembra que a gente passava horas só rindo? Eu lembro bem.
Então... mas né  nada não.
São palavras colocadas num papel numa noite fria de Junho.
São palavras que o coração precisa dizer.
Ele passa tanto tempo calado, afogado em lágrimas.
Um bom tempo sem bater direito sem sua presença.
São palavras que talvez pra você não seja nada não...

Elmo

Inquietude!

São as palavras que aparecem quando parece que todas já se foram. É o resto.
O estancamento final, a cicatrização cotidiana, a ferida que abre e seca ao mesmo tempo.
São as inquietudes...!
É o olhar em volta e não reconhecer-se em nada que não seja aquilo que acredita.
É egoísmo. Algumas vezes necessário. Outras vezes, sufocante.
É a vontade de tirar a roupa do corpo e passar a viver sem nada que lhe prenda.
É a vontade de mandar o mundo ir a merda e os que você ama até a sua casa, para que possam senta-se em uma rede no fim de tarde, ouvir uma música e falar sobre todas as coisas.
É a inquietude da alma.
Eu, ser errante, ser perdido em meio a um mundo de descobertas de coisas que nem sei se quero descobrir, nem sei. Mas estou descobrindo não é? Descobrindo querendo cobrir.
É o olhar em volta e ver um mundo tão supérfluo. E pensar que faço parte dele...! Sim, faço parte dele. Se tivesse que fugir de tudo isso, ficaria incomunicável, morando só no alto de um montanha e desfrutando do que a natureza me dá até o dia da minha morte.
Não sei se é pensamento recorrente. Não sei se é vontade mesmo. Não sei...
é inquietude!

Elmo.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Bia. Capítulo I


Bia
Romance em 3 capítulos
Por: Elmo Ferrér

Capítulo I.


    Flávio entra na boate disposto a curar as dores com bebida. Senta-se no balcão e pede uma tequila dupla.
Uma moça de cabelos negros e pele bem branca colocando bebida na boca dos convidados se revela em meio ao jogo de luzes e fumaça. Sensual, popular, perfeita... ela é do tipo de mulher que deve viver cada dia como se fosse o último.
-Ei, o que é preciso para você colocar bebida na minha boca? -pergunta ele.
Ela vira num rompante. Seus cabelos se movimentam quase em câmera lenta e ele até chega a sentir um arrepio ao olhar profundamente pros olhos negros dela.
- A sua permissão. - diz ela com um grande sorriso.
- Então, eu permito, pode por.
Ele abra a boca e ela põe a boca da garrafa, mas, tira antes de uma gota cair.
- Posso saber por que você quer?- pergunta ela.
- Porque eu quero o quê?
- Ficar bêbado!
- Eu não quero ficar bêbado (...) Dar uma relaxada talvez.
- Ok. Agora só vou te falar uma coisa. O máximo que a bebida pode fazer é te dar uma longa dor de cabeça amanhã. Agora, não espere que ela vá curar essa dor ai. – diz ela batendo no peito dele. – Agora, abre a boca!
 Ela segura o maxilar dele e entorna meio líquido da garrafa.
- Pronto! Boa festa pra você! - ela diz e sai. Flávio fica por alguns segundos estatizado. Ele observa a moça de cabelos negros se afastando, colocando bebida na boca das pessoas e sorrindo.
Ele deixa a tequila em cima do balcão e sai. Sobe as escadarias da boate cabisbaixo. Ao sair de lá, encontra pelo beco sujo, várias mulheres oferecendo diversão. Sem se importar, ele segue para a estação.
- O último saiu as onze, agora, só as seis! – diz o vigia do metrô.
Flavio encosta-se na parede e dorme.

 - Ei, se fosse você tratava de levantar logo, o trem chega em poucos minutos.
Flávio desperta lentamente e se surpreende ao ver a moça da boate em sua frente.
- O que você está fazendo aqui? –pergunta ele, já se levantando.
- O mesmo que você. Esperando o metrô para voltar pra casa.
- E você mora onde?
- Entre o certo e o duvidoso.
- E passa metrô lá?
- Sempre! Na verdade ele está chegando- ela sai correndo sem dar tempo dele lhe dizer tchau.

Bia chega em casa e encontra sua porta arrombada, suas coisas remexidas e escritos ofensivos na parede. O seu instinto é procurar  o pingente em forma de coração que fora dado pela sua mãe no leito de morte. Mexe em todas a gavetas e em meio as roupas espalhadas pelo quarto. Nada. Sua única lembrança, seu único elo com o passado, única referência familiar fora roubado. De repente, um turbilhão de lembranças começam a se desenhar nas paredes do quarto. Seu padrasto batia em sua mãe frequentemente e ela era obrigada a assistir tudo. Também sofria agressões físicas e sexuais por parte dele. Um dia, em uma briga, ele empurrou a sua mãe e esta veio a bater com a cabeça na quina de uma mesa. Bia se ajoelhou em meio a poça de sangue e colocou a cabeça de sua mãe em seu colo. Pediu a ela que retirasse o cordão do seu pescoço, no qual, estava o pingente de coração. Bia deveria guarda-lo por toda a vida. Após o incidente, seu padrasto lhe fez ameaças, pediu para que contasse a todos que tudo não havia passado de um acidente. Sua mãe era a única família que tinha, até onde sabia. Ela tinha apenas 12 anos e mal saia de casa. O medo da rua era grande, mas as humilhações e abusos que sofria do padrasto se tornaram um fardo pesado demais e então ela fugiu de casa e passou boa parte do tempo nas ruas. Começou a se prostituir, mas encontrou aos vinte anos, um homem que mudaria toda a sua vida. O nome dele era Andrey e ele a retirou das ruas e lhe deu uma vida digna. Ele era casado e tinha dois filhos, mas eles pouco tinham relações. Ele a ajudava por bondade.
Quando Bia resolveu sair das ruas, sabia que não seria fácil. O seu cafetão a perturbava pois, além de ser apaixonado por ela, ainda lhe cobrava favores dados durante todos os anos. E foi assim...! Numa noite em seu apartamento, após uma longa conversa sobre planos para o futuro e coisas mais, Bia viu seu apartamento invadido pelos capangas do seu ex cafetão. Andrey, assassinado com um tiro a queima roupas. Ela, desesperada, foge pelas ruas, seguida pelos dois capangas. Bia, atropelada, vai parar num hospital e fica em coma por dois anos. Neste tempo, é procurada pela polícia como a principal suspeita pelo assassinato de Andrey. Ao sair do hospital, ela olha para a vida e pergunta: O que fazer?
Assumiu a identidade de Manuela, começou a trabalhar como garçonete num barzinho da cidade e com o dinheiro que juntou, foi embora da cidade. Começou a vida em outro lugar. Conseguiu emprego em uma boate, alugou um quarto na periferia e agora, está ali. Caída, chorando, sem saber pra onde ir. Seu cafetão havia lhe encontrado e o futuro... só Deus saberá.








sexta-feira, 8 de junho de 2012

Viver!

E quando tudo era pra sempre?
E aqueles amores que pareciam durar uma eternidade?
E aqueles sonhos que perduravam por tanto tempo?

Onde está aquilo que é importante mas se torna relevante com o tempo? As conversas simples, os sorrisos sinceros, as palavras amigas e o carinho sem nada em troca?

Estamos nos perdendo de nós mesmos ou apenas encontrando aquilo que nem sabíamos que tínhamos?

Quero poder amar novamente sem culpa e sem pensar no dia de amanhã. Desistir daquilo que não me acho preparado para ter, agarrar o que me sinto preparado para carregar comigo.

Saber a delícia que é o novo sem esquecer o gosto do antigo.

Viver conforme a minha vida pede... sem precisar ser o que não sou, sentir o que não posso, carregar o que não aguento.

Sentir novamente a brisa das coisas que não se vão. Ser feliz sem medo, sem culpa.

Viver!

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Meninos choram? - Um processo de descobertas.

Queridos do blog.

Agradeço por me seguirem, me lerem e me incentivarem sempre a continuar neste caminho longo e complicado que é a dramaturgia. Mas estamos ai e a cada dia, com mais ânimo para continuar.
Venho agora falar do meu novo roteiro, chamado "Meninos choram?"
Estou entrando em processo de pesquisa e gostaria muito de dividir esta descoberta com vocês!

"Meninos choram?" conta a história de dois primos, criados no interior de Minas Gerais.
Pedro e José nasceram dia 07 de Setembro e por isso, ganharam o nome do Imperador e do Primeiro Ministro do Brasil.
Na casa da avó, os dois brincam e participam de inúmeras aventuras. Todas as brincadeiras que permeiam o universo de uma criança são retratados. Trabalharemos a mediunidade, a perda, a maneira que uma criança tem de entender a morte e os dons naturais.

Começamos o processo de pesquisa de cenário, figurino, corpo e voz de personagem. Quero dividir com vocês, passo a passo desta descoberta.

Elmo Ferrér

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Café.

Ah, o café de Joana. Não sei o que contém que o faz ser tão irresistível. Nunca gostei de café, mas o de Joana era divino. Ela dizia que era o tempo da fervura da água que modifica o sabor.

A primeira vez que tomei  foi no velório da mãe dela. Achei que o segredo daquela maravilha fossem as lágrimas caídas enquanto Joana fazia. Lágrimas modificam sabores.
A segunda vez foi no dia seguinte ao velório. É... eu fiquei por lá para consola-la.
E assim veio a terceira, a décima, vigésima...os sete anos que tomei o café de Joana todos os dias.

O café de Joana. Ah, o café de Joana...

Há dois meses não o tomo mais. Não há mais pó. Não há mais açúcar. Não há mais água. Não há Joana.

E se eu tivesse elogiado mais? E se eu dissesse que não sei mais viver sem seu...café? Será que ela volta?
E se eu disser que  coloquei a água pra ferver para ela apenas colocar o pó? A fervura da água modifica o sabor, não é? A minha já ferveu bastante.
E se eu disser que me faz falta o cheiro de café penetrando todos os cômodos da casa?
E se eu disser que as xícaras empoeiradas esperam? Que as colheres enferrujadas esperam?
E se eu disser que o homem triste espera o café que agora é servido em outro lar?

Elmo Ferrér

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A estação.


* "A estação" é uma série de contos que se passam numa estação de trem. Aqui você acompanha a primeira.


Duas crianças brincavam de pique-pega. Uma senhora chorava por ter perdido a bolsa. Um homem de terno e gravata com uma bíblia na mão tentava converter meia dúzia de pessoas que o rodeavam. Alheia a tudo isso, Ana olhava fixamente para a linha férrea. Há três anos atrás naquela mesma estação, ela se despediu de Pedro. Ambos tinham vinte anos e ele foi fazer um intercâmbio em Londres. Desde aquele dia, nunca mais se viram, mal se falaram. Ela ficou sabendo de sua volta por meio de amigos. Será que ele ainda sentia o mesmo por ela? Será que todas as palavras de amor que foram ditas foram esquecidas?

Para ela, todo esse tempo foi um tempo de espera. Ela não conseguia esquecer por um momento dos dias que passaram juntos, das idas ao parque, dos estudos na biblioteca. De como ele mexia em seu cabelo ou do seu simples olhar. Será que para ele foi igual?

Quando ele recebeu a proposta para ir, nem sequer perguntou a ela o que achava. Apenas avisou: - Vou daqui a quinze dias.- e pronto! Se fosse o contrário, ela estaria desesperada sem saber se ia ou se ficava, se o levaria ou o deixaria. Mas ele não. Mal quis saber o que ela pensava. Para outras pessoas aquele seria um sinal de que não era nada sério, mas para ela que sentia amor por dois, não importava. Ela podia esperar.

Se ele ficasse lá para sempre, ela iria atrás dele. Se ele não a quisesse por lá, ela ficaria aqui, amando-o a distância. Ela só queria amá-lo. Agora, queria vê-lo chegar. Se ele a ignorar, se não souber mas seu nome, se não a reconhecer, não importa. Ela quer apenas vê-lo. Olhar o rosto vivo em sua memória por todos esses anos.

Para ela que amou sempre por dois, continuar amando não seria problema.

Chega o trem na estação. Os seus olhos brilham mais fortes que os faróis. Seu coração podia ser ouvido mais alto que o apito do trem.

Desce uma velha com sacolas,desce um homem com uma mala, desce uma mulher com um menino de colo, desce ele.

Os olhos se cruzaram. Ele sorriu. Ela nada demonstrava. Tanto esperou por aquele momento que agora mal sabia o que fazer. Ela ficou em silêncio enquanto ele se aproximou.

- Você sabe como faço para chegar ao centro da cidade? – disse ele.

- Como assim? –pensou ela.- Ele não me reconheceu?

- Oi...moça!

Ela em silêncio apenas olhava fixamente nos seus olhos.

- Você não lembra de mim? –disse ela.

- Não. A gente se conhece?

- Eu não sei onde fica o centro da cidade!- ela disse e deu de costas.

Ele começou a rir. Ela virou-se para ele.

- Está rindo do quê? De como sou tola por achar que você ia lembrar de mim? Para você tudo não passou de uma aventura não é? –disse ela.

- Estou rindo por que você é uma tola mesmo. Como pode achar que eu te esqueceria se todos esses dias eu pensava em você? Se toda vez que ia dormir abraçava o travesseiro tentando sentir você? Se toda vez que eu pensava em você eu imaginava que já estaria com outro alguém e que para você eu fui só uma aventura? Como posso esquecer de você se eu te amo?

- Mas você foi embora tão repentinamente e mal quis saber o que eu achava...

- Eu fui embora para saber o que você achava. Eu voltei para saber se você estaria aqui. Essa é a resposta!

Os dois se olharam. Ela sorriu. Ele também. Abraçaram-se e depois deram um longo beijo. Todos que passavam pelo local estatizaram. Uma música invadiu o ambiente. Ela pensou: - Ah, o amor é algo tão simples. A gente é que complica tudo.

A imagem dos dois abraçados é vista de cima, cada vez mais longe, enquanto a música vai aumentando e o diretor diz:

- Corta! Ficou ótimo!





















sexta-feira, 18 de maio de 2012

O cupido e a encalhada.


GUARACIABA- É hoje! Essa é a terceira lua cheia, o vento esta em sentido transversal, a coruja já piou sete vezes e eu estou numa encruzilhada. Essa simpatia tem que dar certo. O cupido vai ter que me ajudar, nem que seja por mal. – abre o livro- Bem, agora que eu já fiz tudo, só falta dizer as últimas palavras. :- Cupido, ó cupido. Faça com que o amor entre na minha vida. Que a sua flecha milagrosa possa flechar a pessoa certa e que eternamente me amará.- Bem, agora, dou os três pulos... peraí, mas pulo não é pra São Longuinho? Bem, deve ser pra que eu seja achada logo por alguém né? (ela pula)- Bem, deixa eu ver se falta alguma coisa... (procura no livro)- Acho que não. Então,agora é esperar.
Passa por ela o cupido, com vários papeis na mão, procurando por algo no chão.
CUPIDO- Deixa eu te perguntar meu bem, você não viu um papel desses pelo chão não?
GUARACIABA- Não. Um momento, se eu não estiver ficando louca, o carnaval já passou não?
CUPIDO- Meu amor, brincadeiras agora não ok? Não vem falar da minha roupa senão eu seria obrigado a falar da sua, que diga-se de passagem é da coleção outono-inverno de 50.
GUARACIABA- Credo, que grosso. Eu só achei estranho, por isso perguntei.
CUPIDO- Eu também te achei estranha, mas nem por isso eu te perguntei quem colocou essa macumba na encruzilhada.
GUARACIABA- Oi?
CUPIDO- Bem querida, já que você não vai me ajudar, deixe eu ir andando por que ainda tenho trabalho pela frente. Posso saber o que a senhora faz na encruzilhada essa hora meu amor? O exu ainda não veio te buscar,ou você não é uma obrigação?
GUARACIABA- Não senhor, não sou obrigação coisa nenhuma. Eu estou aqui por que fiz uma simpatia para o cupido lançar a flecha dele sobre mim.
CUPIDO-  Então é você? Meu pai do céu...
GUARACIABA- Não estou entendendo moço.
CUPIDO- Nada não fia. Eu perdi a minha ficha de atendimento desse horário e estava sem saber o nome da pessoa, mas, como você acabou de fazer uma simpatia, então acredito que seja você. Lembrando que eu não costumo mais atender pedidos de simpatia, você entrou pelo sistema de cotas amada.
GUARACIABA- Peraí, então você é o Cupido?
CUPIDO- Eu mesmo querida. Fala logo o que você quer por que ainda tenho que atender três essa noite.
GUARACIABA- Eu imaginava você de outro jeito, como nos desenhos.
CUPIDO- é o que tem pra hoje bem. E outra, quantos anos você tem?
GUARACIABA- 30.
CUPIDO- E ainda acredita que tudo que vê? Acorda querida. Aquele cupido que você vê por ai, de tanguinha, cabelos cacheados já era ok? O mundo mudou,eu sou um cupido  contemporâneo certo?
GUARACIABA- Eu pensei que todo anjinho fosse loiro...
CUPIDO- Dá não, bem. Cabelo loiro da um trabalho danado. Tem que retocar a raiz a cada quinze dias sem contar que o cabelo ficar hiper ressecado, é horrível. Eu não tenho tempo de ficar fazendo hidratação sempre. Mas, vamos parar de papo e me diz: o que você quer de mim?
GUARACIABA- Então seu cupido...
CUPIDO- Ariel meu bem, pode me chamar de Ariel.
GUARACIABA- Então seu Ariel...
CUPIDO- Esquece esse seu minha filha, não faz a educada...
GUARACIABA- Ta, Ariel. É o seguinte. Faz um bom tempo que eu não desperto o interesse de ninguém sabe? Então eu queria muito uma ajudinha, se não for pedir demais.
CUPIDO-  Você é digna de pena querida.E a quanto tempo que você não pega ninguém meu bem?
GUARACIABA- Uns... trinta anos.
CUPIDO- Ui. O caso é mais grave do que eu pensava.
GUARACIABA- Será que eu tenho algum problema?
CUPIDO- Querida, você não tem um problema, você é o problema. Nem muriçoca quer te picar amada.
GUARACIABA- Pior que é. E o que fazer então?
CUPIDO- Se eu fosse Deus eu ia te deletar da face da terra, mas, como eu não sou, o máximo que posso fazer é te dar umas dicas, mas olha, não faço milagre certo?
GUARACIABA- O que você mandar eu faço.
CUPIDO- Ta precisada mesmo né filhinha? Então vamos começar pelo começo. Qual seu nome?
GUARACIABA- É Guaraciaba.
CUPIDO- Senhor. Parece nome de aguardente meu bem. Você nunca se apresentou para alguém usando esse nome não né?
GUARACIABA- Já.
CUPIDO- Ta explicado. Então, a primeira coisa que a gente vai fazer é mudar esse seu nome uó.
GUARACIABA- Não. Esse nome veio de uma tradição familiar. Meu pai nasceu as margens do Rio Guarajá, e a minha avó deu pra ele o nome do rio, então para preservar a tradição, todas minhas onze irmãs e eu, fomos batizadas com as iniciais do seu nome. Guaraci, Guarimari, Guarujá, Guaracininga, Guarujaé, Guaramirin...
CUPIDO- Tá, tá. Para! O que é isso minha irmã? É o ponto do  caboclo Tupinambá? Pelo amor de Deus. Foda-se a tradição ok? Foda-se! A partir de agora você se chama Gisele.
GUARACIABA- Gisele? Eu sempre quis me chamar Shirley, da pra ser?
CUPIDO- Não. Gisele. E não me conteste.
GUARACIABA- Tudo bem. Ai Ariel ,por favor, me flecha para que todos os homens possam me olhar de outro jeito...
CUPIDO- Você não sabe a vontade que eu tô de dar uma flechada bem no meio das suas fuças. Mas infelizmente não rola. Flechada foi proibida ta? Porte ilegal de armas, três anos de xilindró. Não rola. Agora eu apenas banco o psicólogo e dou conselhos para você levantar a estima, se bem que a sua ta mais pra baixo que peito de velha.
GUARACIABA- Então, como eu posso ser notada?
CUPIDO- Calma, não pensa tão alto, vamos começar devagar. Quais são os lugares que você costuma freqüentar?
GUARACIABA- Eu vou á vários lugares. Igreja, chá beneficente, aniversário de amiga.
CUPIDO- E ainda espera pegar alguém? Na igreja meu amor, o máximo que você vai conseguir pegar é a hóstia. Sem contar que quando o padre olhar pra sua cara ele vai mandar você rezar uns 600 pai-nosso e 1...000 Ave-Maria por andar assustando a humanidade.  No chá beneficente só vai mulher, se bem que você tem cara mesmo de chá beneficente. E aniversário de amiga é o mesmo que você assumir para todo mundo o quanto você é velha né? Por que se o tempo ta passando para elas, para você então, ele ta passando, lavando,cozinhando...
GUARACIABA- Essa eu não entendi.
CUPIDO- Esquece. Então Guarabara...
GUARACIABA- Guaraciaba!
CUPIDO- Tá, Gisele! Então Gisele, eu quero que você faça o seguinte. Vamos fingir que nós estamos numa balada certo? Eu sou um homem que estou observando as mulheres que eu poderia pegar e você vai dançar para mim, me dando mole. Entendeu?
GUARACIABA- Eu não sou muito boa nisso.
CUPIDO- Querida, você não é boa nem pra tosse, mas, é o que tem né? Então vamos trabalhar em cima disso. Música.
ELE BATE PALMAS E A MÚSICA COMEÇA.
GUARACIABA- De onde apareceu essa música?
CUPIDO- Querida, eu sou o cupido. Alô! Agora dança.
ELA COMEÇA A DANÇAR SEM JEITO.
CUPIDO- Para! Pelo amor de Deus. Meu amor. Eu estou super em dúvida se acabei de ver o exorcista 2 ou uma vaca louca pisando num fio desencapado. Assim não rola.
GUARACIABA- Você acha que nenhum homem vai olhar para mim dançando assim?
CUPIDO- Te olhar até que vão, mas com desprezo. Meu bem, deixa a música te envolver, sinta-se uma diva. Certo? Vamos de novo.
ELE BATE PALMAS E ELA DANÇA DO MESMO JEITO.
GUARACIABA- E então?
CUPIDO- O mosquito da dengue é mais sexy.
ELA COMEÇA A CHORAR.
GUARACIABA- Eu sou um desastre.
CUPIDO- É mesmo, mais dar ataque de pelanca agora não vai ajudar em nada. Levanta essa cabeça e vamos pensar em outra alternativa. Faz o seguinte. Como dançar não é o seu forte, vamos investir no carão. Você vai ficar parada, olhando para lá. Daí, conta até dez e vira. Joga o cabelo e me da uma encarada. Faz cara de sedução entende? Cara de mulher que manda, decidida,digna!
GUARACIABA- Ta bom.
CUPIDO- Ok? Pode começar.
(t) ELA EXECUTA OS MOVIMENTOS DITADOS POR ELE.
GUARACIABA- E então?
CUPIDO- Seu sapato tá apertado filha?
GUARACIABA- Não.
CUPIDO- Então por que a cara de dor misturada com fome meu bem?
GUARACIABA- Eu fiz o que você pediu.
CUPIDO- Eu acho que se você tivesse nascido do avesso seria mais fácil. Ok! Acho que não vai dar. Faz o seguinte. Chega chegando. Vai até a platéia, escolhe um homem, olha nos olhos e diz: Oi, sou Gisele e essa noite eu quero você. Certo?
GUARACIABA- Certo.
CUPIDO- Atitude minha irmã, atitude!
MUSICA, ELA VAI ATÉ PLATEIA DESFILANDO.
GUARACIABA- Oi. Meu nome é Gisele e essa noite eu quero você.
ELA SAI E VOLTA AO PALCO.
CUPIDO- Por que você voltou anta?
GUARACIABA- Ué. Eu fiz o que você me disse.
CUPIDO- Sim meu bem, mas você tem que ver se ele vai corresponder. Vai de novo e da o seu numero para ele, pede para ele te ligar e diz que você vai levar ele a loucura. Vai!
ELA FAZ A AÇÃO E VOLTA AO PALCO.
CUPIDO- Ta vendo que não foi tão difícil?
GUARACIABA- Será que ele vai me ligar?
CUPIDO- Claro, você não deu o numero do seu celular?
GUARACIABA- Eu não tenho celular. Dei o numero do orelhão perto da minha casa.
CUPIDO- Olhe... Deus quando te fez jogou a forma fora.
GUARACIABA- Sério?
CUPIDO- Sim. Pra não cometer mais o mesmo erro né minha irmã?
GUARACIABA- Mas eu estou vendo que ele ta me olhando...
CUPIDO- É né? Ele também não é nenhum deus.  Bem, agora que você já arranjada, eu preciso ir por que ainda tenho mais gente para atender.
GUARACIABA- Ai Ariel... obrigada mesmo viu? Você me ajudou muito.
CUPIDO- Querida. O que você tinha sempre esteve dentro de você, eu só fiz ajudar a pôr para fora, mas essa sua luz, ela transcende. É uma coisa que vem de dentro e que te ajudou. Você tem brilho próprio meu bem. Você terá o homem que você quiser.
GUARACIABA- Sério?
CUPIDO- Claro que não né? Você me deu mais trabalho que tudo. Olha só..(ANOTA NUM PAPEL)-  Qualquer coisa vai nesse pai de santo aqui. Ele é maravilhoso. Traz a pessoa amada em três dias de limusine e ainda entrega na porta da sua casa.
GUARACIABA- Ta bom, brigada.
CUPIDO- Nada fia... peraí, que papel é esse aqui no chão? Gente, é a ficha da cliente desse horário. Claudia dos Santos. Não era você a pessoa que eu iria atender agora. Vou ter que jogar a última pra amanhã para ver se consigo pelo menos dar uma descansada. Então é isso querida, felicidades. São R$ 250,00.
GUARACIABA- Como assim? Você está me cobrando pela consulta?
CUPIDO- Claro, você não tava marcada. É assim que funciona. Vamos, aceito cheque, promissória, tele-sena, cartão, vale-gás, o que tiver.
GUARACIABA- Mas se eu te der meu dinheiro eu fico sem ter como voltar pra casa.
CUPIDO- Tem problema não. O caminhão do lixo passa em duas horas, pede uma carona, certamente eles não vão te negar. É capaz até de você ser eleita musa do lixão.
ELA PEGA O DINHEIRO NA BOLSA E ENTREGA PARA ELE.
GUARACIABA- Só tem R$240,00.
CUPIDO- Tudo bem, depois você me passa os dez, eu descubro onde você mora e vou lá.
O TELEFONE DELE TOCA.
CUPIDO- Oi? Como? Não querida, eu tenho um cliente agora. Tudo bem, eu dou um jeito... –voltando-  É a fada do dente. Pegou caxumba, vou substituí-la. é cada uma que me aparece. Até.
GUARACIABA- Até.  Ai... Mas como é difícil achar quem ajude a gente de graça hoje em dia. Será que o caminhão do lixo vai me dar mesmo uma carona? Peraí, que cartão é esse? (lendo) Evandro, o cupido. Atendo em domicílio, jogo búzios, runas, tarô,faço amarração pro amor e trago seu amado em sete dias em um cavalo branco. Que safado... eu fui enganada por um falso cupido. gente, como eu sou burra. Como eu sou burra. Só levando na cara mesmo para aprender viu? Bem que eu notei que ele estava me esculhambando demais. Salafrário.Bem, mas pelo menos eu to arranjada né? –olha para a pessoa da platéia-  Eu vou em casa tomar um banho e ficar cheirosa para você e volto tá? E não some não por que senão eu vou no pai de santo e trago você de volta em menos de uma semana.Ah trago!
MUSICA. ELA SAI .
FIM.

Maria, a louca.


Ela senta no meio fio de uma rua qualquer, olhos pretos de maquiagem borrada, pingos de chuva ácida caindo do céu molham seus cabelos vermelhos desbotados.

Ela abre o agenda de 95 qua ainda usa para escrever versos que não tem coragem de mostrar pra ninguém.

Numa folha manchada se encontra a rosa seca que ganhou de sua ex.

Numa folha seca encontra a palavra manchada por lágrimas que derramou por sua ex.

Maria, a louca. Assim é chamada por várias pessoas que a conhecem, ou não. Só por que tem o estranho hábito de dançar pelada na rua enquanto a chuva cai.

Para ela, isso é natural. Quantas tantas outras saem por ai quase peladas e são apenas chamadas de bonitas?

Ela pega bitucas de cigarro que encontra pelas calçadas e fuma. Ela pega bitucas de amor que desperdiçam e guarda no paletó velho que usa.

Maria, a louca. Assim é chamada por aqueles que a conhecem,ou não. Só por que uma vez matou um gato que a arranhou. Para ela, isso é natural. Quantas tantas outras saem por ai matando muriçocas que as picam?

Ela pega pedaços da primeira carta de amor que recebeu e reconhece frases soltas que um dia, quiseram dizer alguma coisa que acabou por se tornar frases soltas e sem sentido algum.

Ela se olha em uma poça d’água e se vê embaçada. Ela se olha no vidro da loja atrás dela e se vê embaçada.

Maria, a louca. Assim é chamada por aqueles que a conhecem, ou não. Só por que uma vez bateu em uma criança que a chamou de louca. Para ela, isso é natural. Quantas tantas outras saem por ai batendo nos outros com palavras que machucam ainda mais?

Ela abre a bolsa feita de retalhos de tecido e retira um vidro com uma última gota de perfume. Seu momento se confunde com o vidro. 95% vazio, com um resto de algo que só poderá ser usado apenas mais uma vez.

Maria, a louca. Assim é chamada por aqueles que a conhecem, ou não.

Por: Elmo Ferrér

domingo, 6 de maio de 2012

A montanha.




Naquela noite chuvosa, o silencio predominava na casa dela. Percorrendo os corredores, apenas  velas acesas e as sombras espectrais. O silêncio foi cortado por pequenos sussurros vindo de dentro do armário. Ela estava sentada, debruçada. Aquele era seu lugar preferido desde que foi para aquela casa. Era lá que ela esperava a raiva passar, que reclamava de tudo e  que conversava com seu amigo imaginário. Um dia, acreditou ter visto uma luz, o que julgou  ser uma pequena fada. Besteira,ela não acredita em  fadas. Ela não acreditava em nada.
Quando saiu, não viu nada. Passou pelo corredor dos espíritos. Ela assim o chamava, devido as sombras das esculturas refletidas pela luz das velas a noite, o que dava uma sensação de terror indescritível a ela. Percebendo que seu vestido branco estava manchado de sangue e que estava descalça, se confortou, afinal, depois de tudo que lhe acontecera desde o começo da noite, calçar os sapatos definitivamente não era de grande importância.
Ela procurou por todos, gritou, não obteve respostas.
Ela entrou nos quartos, foi até a sala . Nada. Apenas o silencio.
De repente, um forte vento entrou pela janela da sala e como uma correnteza, percorreu os corredores, apagando as velas. Escuridão, Ela gritou. Um grito de susto, de horror, não se sabe. O que parecia ruim, agora se tornara pior. Ela apenas ouvia o seu coração, batendo tão forte, como ela jamais tinha visto. Ela procurou se apegar as coisas que estavam próximas, tentando se localizar. Foi quando ela sentiu aquela mão gelada no seu tornozelo. Ela gritou, chutou e correu. Seja lá de quem era aquela mão, era pegajosa.
Agora, ela corria, sem olhar pra trás. E enquanto corria, chorava. E enquanto chorava, pensava.
Naquele início de noite, a lua estava escondida por nuvens feias e os pássaros voavam baixo. Aquela mulher, que ela não sabia ser ou não  sua mãe estava preparando o jantar e seu pai, que ela também duvidava ser,  tocava o piano. Ela brincava com seu amigo imaginário no balanço, que ficava na única árvore daquela montanha onde morava. Ela não se lembrava como eles foram morar ali, apenas, que nunca recebiam ninguém e que nunca lembrou de conhecer alguém além do seu amigo imaginário.
Ela não acreditava pertencer aquele lar e também nunca se sentiu filha dos seus pais. Algo neles a incomodava, ela não conseguia ama-los. Sua mãe era alta e magra, seu pai também. Ela chorava todos os dias. Não gostava mesmo deles, nem da casa, nem da montanha. Apenas do seu amigo imaginário, que era o único que ela conversava e era o único que a entendia. Todos os dias, ela só saia do sótão para comer. Ficava no armário, com ele. Seus pais achavam estranho, mas não ligavam. Pelo menos dentro do armário, ela não ficava sentada na cadeira no canto da cozinha olhando para eles com aquele olhar de ódio que ela tinha.
Ela dificilmente falava. Só com seu amigo.
Ela empurrava o balanço e se divertia com as gargalhadas dele. Ele parecia voar. Ele era um menino muito bonito, o mais bonito que ela já viu. E também o único. Ela sentiu uma gota d’agua cair sobre seu rosto, começara a chover. Ela não se importou, gostava de brincar na chuva. Seus pais não se importavam se ela pegaria um resfriado. Eles não se importavam com ela, a estranha.
Ele não quis mais brincar, pediu para entrarem. Ele não gostava de chuva.
Ela entrou, molhando o assoalho. Sua mãe brigou e disse que ela entrasse pelo fundo. Ela, de pirraça, se sacudiu, molhando ainda mais o assoalho. Não sabia por que, mais gostava de ver a cara de raiva da sua mãe. Gostava de vê-la triste. Sentia  prazer em irrita-la. Sua mãe lhe falou que ela era uma péssima filha e que era por isso que ninguém gostava dela. Seu pai levantou e perguntou o que havia acontecido e após a explicação da sua mãe, tirou o cinto e bateu nela. Ela ria, gostava de apanhar, de sentir dor. Maior do que a dor de apanhar, era o prazer de provocar raiva neles.
Seu amigo imaginário apenas observava e dizia para ela continuar rindo, porque assim, eles iriam ficar ainda com mais raiva dela.
Naquele momento, seu amigo tocou seu rosto. E então, ela não lembra mais de nada, apenas que estava a pouco chorando no armário.
Ela correu, até que chegou ao fim da montanha, no precipício. Ela olhou para baixo e viu como era lindo o vale cinza. Assim ela chamava o rochedo que avistava.
Ela não viu seu amigo desde então. Até que ele lhe apareceu. Ela perguntou se ele tinha visto seus pais e ele, disse que eles estavam na casa, refletidos na parede pela sombra das velas. Ele disse que queria ensiná-la a voar. Então, pegou em sua mão e juntos pularam. No ar, ele soltou sua mão e pediu para que ela abrisse os braços. Ela fechou os olhos. Uma imagem veio a sua cabeça. Uma menina, sendo  entregue a seus pais por dois homens vestidos de branco e de sua mãe dizendo que era melhor ir embora para um lugar distante, antes que ela fizesse mal a mais alguém.
A menina abriu os olhos, seu amigo já não estava mais com ela. O rochedo se aproximava. Ela viu uma luz. Seria uma fada? Ela não acreditava em fadas, ela não acreditava em nada.

O jardim.



             Os primeiros raios de sol começavam a aparecer timidamente. A noite e a madrugada foram de forte chuva. Marina, enrolada em uma manta, toma seu café amargo . Com a caneca nas mãos e a fumaça do café quente se misturando a fumacinha que sai com sua respiração ela passa pelo corredor de chão de madeira e paredes brancas repletas de fotografias. Abre a porta e um grande jardim lhe sorri. Os pássaros aquecem as vozes, duas ou três borboletas brincam no ar. Um beija -flor se aproxima e a observa. Logo os olhares se cruzam e ela entende que ele parece querer lhe dizer algo. Talvez ele queira lhe dizer que as dores passam ou que a tristeza é uma constante ou não queira lhe dizer nada, apenas observa-la, apenas deixar que o olhar expressasse a mensagem que ela queira entender. Mas o fato é que naquele momento ela precisava mesmo ouvir algo. Já  faz um mês que se abrigou na casa grande para pensar na vida e  colocar a cabeça em ordem. A manhã de domingo de um mês atrás estava bem diferente daquela. Estava muito mais iluminada e mais florida. Era o dia do seu casamento. Decidiu se casar no campo, no jardim, perto das flores, do verde, coisas que gostava. Ela relembra os rostos das pessoas quando chegou. Eram olhares de... pena? Carinho talvez. Alguém lhe disse que ficasse ali pois havia acontecido algo e a primeira coisa que ela perguntou foi por Helena. Um rapaz disse que ela ainda não havia chegado. Uma mulher lhe disse para ficar calma. "Ficar calma pra quê?” Por que nessas horas as pessoas não conseguem ser objetivas e ir direto ao assunto? Ela se atrasou? Ela desistiu? O que aconteceu? Ainda ontem estava tudo certo. Uma mão pousou em seu ombro, era seu irmão, com lágrimas nos olhos.

Ao piscar o olho ela percebeu que o beija- flor estava ali, acompanhando seus pensamentos. O que ele queria lhe dizer? Ele então rodopiou em volta dela duas vezes e lhe deu um beijo.

Em um fim de tarde de  Fevereiro ela estava sentada a beira do lago pensando em  como a vida lhe pregava peças e que definitivamente não nasceu para ser feliz. Há tempos vem tentando encontrar o homem ideal, aquele que lhe amaria como precisasse, que lhe amaria por ser, por existir, sem nada em troca. Um amor sincero, puro. Mas como era difícil. Foi quando olhou para o lado e viu aquela mulher magra, de cabelos negros, pele branca e meio corpo no lago. Aquele fim de tarde não era propício para alguém tomar um banho e ainda mais de roupa. Estava um tempo frio. Ela colocou a mão na água e percebeu que estava gelada. O que aquela mulher estava pensando em fazer estava bem longe de ser um simples banho de fim de tarde.
- Ei, moça. Não acha que a água está fria demais? - acenou dando pequenos pulinhos para chamar a atenção.
Helena continuou parada, olhando pra frente, cabelos ao vento. Não fez questão de olhar para ver quem estava lhe chamando. Então, deu mais dois passos para frente.
- Moça. Ei! Está começando a escurecer, tem certeza que quer ficar ai? - gritou, fazendo concha com as mãos para ampliar a voz.
Mas Helena não deu importância e deu mais dois passos pra frente.
"Não vou ser inconveniente. Se a moça resolveu pensar na vida, vestida e dentro d'água, é porque certamente quer fazer isso. Cada um pensa na vida da forma que quer."- pensou.

Os caminhos dos amores fracassados sempre se cruzam. E assim como Marina, Helena também pensava que não nasceu para ser feliz. A vida não estava sendo justa com ela. A traição de Caio, a perda da mãe, as brigas em família por inventário, tudo aquilo havia era tão desgastante. Era muita coisa pra pensar e pouco tempo, pouca vontade. Ninguém em seu meio percebia que ela morria aos poucos. Não comia, mal saia de casa. Ruídos de discussão vinham de todos os cantos da casa e invadiam seu quarto e ela, com o travesseiro em volta da cabeça, tentava fingir que não ouvia tudo aquilo. Cansada, saiu decidida a por um fim em todos os problemas, se atirando naquele lago e pondo fim a uma vida que não interessava a ninguém.

- Não sei o que você pretende fazer, mas seja o que for farei também.
Era a voz de Marina ao seu lado, dentro d'água.
- O que você está fazendo? Não percebeu que eu quero ficar só? Será que não tenho o direito a me matar?
- Tem, claro que tem. Mas uma vez alguém me disse que boas ideias deviam ser sempre compartilhadas e achei essa sua ideia muito boa, tanto que me deu vontade de morrer também.
- E porque você quer morrer?
- Por que um dia isso vai acontecer e não sei se estou disposta a esperar tanto tempo. Esperar a morte significa sofrer enquanto espera e eu não sei se quero sofrer mais.
- Nem eu!
As duas se olham.
- E então... como é saber que vai morrer daqui a pouco tempo? -disse Marina.
- Me conforta. Acho que essa será a coisa mais sensata que farei desde que me entendo por gente.
- É... sabe que eu também? Ah, a vida é tão... sei lá!
- Tão sei lá?
- É. Sei lá!
As duas sorriem e Marina pode ver como o sorriso de Helena é lindo.
- E então?- Marina olha pra Helena.
- Então o quê?
- Não vamos pra frente?
- Ah, sim.
As duas dão um passo à frente.
- Como você espera morrer?- diz Marina.
- Ah, não sei bem. Sabe... é a primeira vez que faço isso. Não sei se submerjo com o nariz tampado assim. -ela prende o nariz com os polegar e o indicador e fala com voz fanha. - O que acha?
- Com essa voz? Acho que não rola muito não gata! -Marina dá uma piscada e um sorriso, o que faz Helena sorrir também.
- E então? - Marina olha para Helena com as sobrancelhas levantadas.
- Então??
- Vamos morrer eu não vamos?
- Ah, vamos! Vamos dar mais dois passos?
- Pode ser.
A água fria bate nos seios de Marina.
- Nossa, está bem gelada mesmo. Ainda está na sua cintura, o que significa que eu vou morrer primeiro.- diz Marina dando um risinho meio apavorada.
- Pra mim isso quer dizer que você é bem mais baixa que eu.
As duas riem. De repente, silêncio. E as duas ficam assim por um tempo.
- Não sei se é um bom momento para se apresentar mas eu me chamo Helena.
- Marina!
- Me diz Marina. Qual a último momento que recorda antes de morrer?
Marina pensa por um momento.
- Pode ser um imagem? Bem, acho que o meu diário. Era rosa e tinha um coração no meio. Quando ganhei de presente de aniversário eu achei cafona mas... bem, ele acabou virando meu melhor amigo e o único que de certa forma me entendia. Acho que nós, garotas, temos um pouco disso. Essa coisa de escrever tudo que pensa. Volta e meia eu o folheio para lembrar dos tempos onde sofrer por amor era o fim de tudo para um garota. Mas no fundo a gente sabe que ainda muitos amores viriam. Diferente de quando se é adulta. Parece que cada amor mal resolvido, cada decepção, tira de você um pedaço. Vai te deformando, te decompondo. E você? O que lhe vem a mente?
- Eu estava aqui ouvindo você e vendo seu diário rosa, cafona.- rir- Bem, deixa eu ver. A minha mãe morreu há um tempo e eu fui pra casa de uma amiga pra colocar a cabeça em ordem. É uma casa grande, no meio das montanhas. E tem um jardim tão lindo. Eu estava lá, sentada na grama, acho que pensando em nada, porque quando se tem tantas maravilhas em volta você não consegue pensar em nada, pelo menos comigo.
- Comigo também- disse Marina.
- Pois é. Então do nada me apareceu um beija- flor, ficou parado batendo as asas e me olhando. Eu tive medo, pensei que a qualquer momento ele iria me bicar, mas não. Ele me olhou, como se quisesse me passar uma mensagem. Me chamou a atenção a beleza daquele pássaro. De como é gracioso e tão... sensível. Eu pensei que  poderia ter vindo ao mundo como um beija- flor e não como ser humano. E desejei de certa forma que, quando eu morresse, eu me transformasse num. Na verdade eu sei que isso é loucura. Mas a vida é feita de loucuras não é?
- É. As loucuras que fazem caminhos distintos se cruzarem. E você, que queria morrer e virar beija - flor, imaginou um dia que sua morte seria num lago sujo em companhia de uma desconhecida?
- Sabe que não? Eu sempre desejei mesmo é encontrar um amor. Assim, mesmo sabendo que um dia a morte viria, por que ela sempre vem, eu estaria gastando o tempo ao lado de alguém que valeria a pena.
- É... eu também. Vem cá, você não acha que esse lance de morrer aqui não é meio ruim? Sei lá. Encontrarão nossos corpos na margem, cheios de lama e lixo. Eu proponho uma morte diferente.
- Como diferente?
- Ah não sei. Gastar o tempo ao lado de alguém que vale a pena até  que ela venha por vontade própria.
Helena sorri.
- Bem, quem sabe não é uma boa proposta?

Marina não percebeu quanto tempo passou no jardim. Duas, três horas. Quando voltou a si, viu o beija- flor ali, na frente. E percebendo meio que por intuição que ele a chamava para algum lugar, ela o seguiu. Entrou mata a dentro e chegou em um lugar que ainda não conhecia. Um lugar com árvores altas e uma gruta escondida por trepadeiras. O beija- flor entrou no local e ela  foi atrás. Ao abrir a imensa cortina de trepadeiras cobertas com flores, sorriu ao ver milhares de beija- flores de todas as cores dançando no ar e irradiando um brilho que não há como descrever. Estaria ela sonhando? Não se sabe. Mas estava ali. Pisou em flores e percebeu que no chão havia um desenho. Flores rosas e amarelas desenhavam um coração com fechadura, como o seu diário. O lugar onde guardou as emoções e sentimentos puros da juventude.

Helena ia a frente em sua bicicleta com cestinha. O tempo estava bom e dali a dois dias elas iriam se casar. Estava bem corada e nem lembrava a moça triste de um ano atrás. Marina vinha devagar, nunca teve fôlego para andar de bicicleta, nem gostava. Só estava ali para agradar Helena, pois quando há amor, a gente entra mesmo sem querer nos hábitos do outro.
- Marina, anda logo! Nessa velocidade a gente não chega nunca!- disse Helena em pé, segurando a bicicleta e batendo o pé direito.
- Calma. Não precisa presa. Lembre que se não fosse por mim você não estaria aqui hoje.
- Vai jogando na minha cara vai!
Quando Marina se aproximou ela lhe deu um beijo no rosto.
- Minha tartaruga.
- Vamos parar de pedalar um pouco e andar? Estou cansada.
Marina desceu da bicicleta e as duas seguiram andando.
- Helena... por que é tão importante pra você que a gente veja o por do sol hoje? A gente tem tanto tempo pra isso.
- Será que temos mesmo? A gente nunca sabe. Este ponto aonde vamos é o melhor local para ver o por do sol, vai por mim. Amanhã a gente não vai se ver, eu preciso ir na minha cidade pegar o tal documento e só volto horas antes da cerimônia.
- Não sei pra quê este documento.
- Sei ele a gente não casa!
- Eu quero ir com você!
- Não, você precisa ficar pra organizar o que falta.
- Essa viagem me deixa preocupada.
- Não precisa se preocupar. Eu vou sempre te mandar uma mensagem. Ei, eu não vou morrer se é isso que você pensa.
- Não! Nem fale uma coisa dessas!
- E mesmo se eu morrer, eu mando uma mensagem pra você de alguma forma.
Marina para.
- Não fale mais isso tá bom? Sabe que eu fico assustada.
- Estou brincando. Agora, sobe nessa bike e vamos, se não a gente perde o melhor espetáculo do mundo. Ah, Marina...!
- Fala!
- Escreva esse momento no seu diário. E escreva uma frase entre aspas. " Onde ver brilhar, lá estou. Onde houver um beija flor meu espirito estará, sempre, a te olhar."
- Nossa. É lindo.
- Acabei de pensar. Vamos?

Marina está sentada no degrau que dá para o jardim com seu diário aberto. Um beija flor a observa de longe enquanto a tarde vai morrendo, aos poucos.

Elmo Ferrér

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Sobre...

...um encontro casual, sem expectativas. Mas os olhos que não mentem olham além. A alma que salta e rompe a barreira das palavras que não podem ser expressadas.
No fundo a gente sempre sabe quando encontra a nossa cara-alma-vida-metade.
E que as coisas aconteçam no seu tempo.
Deixe fluir...!

Elmo.

Enquanto espero o sono...



...reflito sobre as coisas que realmente são importantes e que de alguma forma ou outra ficam perdidas, esquecidas lá no passado. Quando a gente é criança a gente não tem medo de amar, talvez pela não consciência ou conhecimento do sofrimento. Mas como tudo seria mais fácil se as pessoas parassem de ter medo de sofrer...
Hoje, sofrer ficou mais forte que amar. As pessoas não entram mais nos relacionamentos pensando em amar e sim, no que de ruim isso poderá lhes causar no futuro. E com isso deixam de viver, de se entregar de verdade.
E aquele bobo que se apaixona pelo simples bater de cílios, por cada vogal, cada consoante que sai da boca de alguém? Esse bobo apaixonado precisa se privar de sentir por que amanhã poderá sofrer ou se arrepender por ter amado?
Se arrepender por ter amado?? Prefiro me arrepender por odiar, por querer mal, por ser ruim, não por amar. E nada de pensar em sofrer. Vamos sofrer pelo que importa. A morte de um ente querido, a guerra, a fome, a pobreza. Isso sim merece nosso sofrimento. Mas amor... o amor não existe para fazer sofrer. Se faz, então talvez você esteja sentindo alguma coisa que tenta se passar por. 

Elmo.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Estranhos.

1965-Amarante abandona mulher e filhos numa cidade do interior para viver ao lado de uma atriz de teatro chamada Madalena, em outra cidade.
1966- Madalena, usando o nome de Rita, mantém um caso com Otávio.
1967- Cansada das viagens e boemias de Amarante, Madalena o abandona, vende a casa e o deixa na rua. De recordação, deixa apenas uma carta escrita num papel de pão e um sapato, que esquece no quintal de casa. 
1968-Otávio, quando descobre que era amante de Rita, resolve abandona-la para viver a vida boêmia e quem sabe, encontrar um amor verdadeiro. 
1972- Numa rua qualquer, um homem chamado Amarante lê mais uma vez a carta escrita por sua amada traidora. Esta carta é encontrada por Otávio que se encanta pelas palavras da moça e decide procurar a tal Madalena, jovem solitária e desprezada. O destino o coloca no caminho de Amarante, de quem vira amigo. E do diálogo dos dois em uma calçada qualquer, acabam descobrindo que a traição sempre encontra o traidor.

Estranhos- ensaio sobre a traição
Com: Elmo Ferrér e Láidison Peixoto
Dramaturgia: Elmo Ferrér

A ultima postagem.


Essa é uma postagem de dispidida. Percebo que aos poucos minha vida virtual comessa a perder o çentido. A dias venho publicando coisas no meu facebook, no twitter, no blog, no escambaú e nimguém, nimguém, eu disse NIMGUÉM me compartilha, me curte, me comenta, me cutuca ou me segue. As vez eu penso que sou um lixo virtual. Não sei, eu achei que fosse querido afinal tenho quase 234 amigos no Face e 7 seguidor no twitter. A galera do Orkut até era legal. Eu postava alguma coiza e sempre alguém comentava com um "Hum" ou um "Rs". Mais hoje em dia, nada disso. Eu fico o dia inteiro na frente di computador esperando anciosamente que alguém curta o que acabei de postar e o que eu recebo de troca é o desprezo virtual de todos. Não sei mais se vale a pena continuar...me sinto só, desprezado. Acredita que já cheguei até a pensar em me matar e pedi pra alguém publicar a foto do meu corpo no Facebook? Mais daí fiquei pensando se as pessoas ia curtir. Será que alguém vai compartilhar, comentar? Se isso aconteser ficarei feliz, pois esse sempre foi meu sonho. Já publiquei algumas frases de ums escritor famoso pra acharem que fui eu, mais nem assim. Bem, o que importa agora é que eu decidi morrer virtualmente e se caso essa carta de dispidida for curtida, compartilhada ou comentada por alguém, não me importo mais. Se ninguém me notou em vida, não me intereça depois de morto. Vô morrer sem saber o purque nimguém gosta de mim.
 Com lágrimas caídas sobre o teclado do meu PC, me dispeço, dispesso... eu vou embora. Fui!

Ass: Internauta indiginado. com

quarta-feira, 28 de março de 2012

Mais uma dança


Mais uma vez ela é convidada a dançar. E ela sabe: aprendeu!
Quando chegou no salão há um tempo, dois ou três anos, ela mal sabia fazer o dois pra lá e dois pra cá. Mas então, veio o primeiro convite. Um rapaz bonito, alto, branco, olhos claros. Tentador. Alguns pisões no pé aqui, um passo perdido ali, duas músicas foram dançadas e um "foi um prazer dançar com você" encerrou a coreografia. Ainda tem a parte do rapaz saindo sem olhar pra trás e ela pensando: "Ele me usou. Dançou comigo o quanto que quis e depois foi embora."
Mas no outro dia lá estava ela novamente. Loiros, morenos, altos, baixos, barrigudos, bigodudos, feios, bonitos, espíritas, católicos. Todos dançam e vão embora. No máximo, um ou outro paga uma cerveja ou estende a conversa.
Fábio ainda chegou a leva-la em casa, mas não passou disso.
Márcio, bêbado, a beijou mas depois não a procurou mais.
Ela passou dias sem ir ao baile, triste, por não encontrar o par perfeito.
Mas ainda assim, lá está ela, sentada, esperando alguém convida-la. Dia após dia. E sempre consegue.
Hoje ela tem a certeza de que só é convidada pra dançar, porque sabe dançar. Porque aprendeu.
E de uma certa forma, ser usada como acompanhante de alguns pra uma ou duas músicas, é o que ela sabe fazer de melhor.

Elmo.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Enquanto espero a chuva.


*em Maio, estreia o espetáculo infanto-juvenil "enquanto espero a chuva" do qual eu sou ator e dramaturgo. Aqui você confere a sinopse da peça.

A rua das amoreiras é o reduto de cinco crianças: Os irmãos Vicente e Pedro, Ana, Maria e Carlos. É lá onde todas as brincadeiras são possíveis e a alegria não tem hora pra acabar. Mas a hora um dia chega. Após uma trágica enchente, Vicente perde toda sua família, inclusive Pedro. Ele então é obrigado a ir morar com o padrinho e perde contato com seus grandes amigos. Indo parar no interior da Bahia, ele se vê oprimido pela mulher do seu padrinho, que não o deixa chorar pela falta dos pais dizendo sempre que homem não chora. Quando a chuva vem, Vicente se sente aliviado. Pode chorar, pois suas lágrimas se misturam a chuva e assim ninguém percebe seu pranto. A chuva que levou sua familia é também o consolo para seus dias tristes. Prestes a reencontrar seus amigos, ele foge. E é no caminho, que histórias de vida se encontram, mostrando que jamais uma verdadeira história de amor e amizade, tem um fim.

Elmo Ferrér.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Tolo paciente.


Lágrimas nos olhos. Ele espera que o amor venha novamente.
Espera sentado, em um banco de praça. Em uma fria manhã de Dezembro.
(...)
Quando as feridas estavam quase cicatrizadas, ele as mostrou. Sabia que não podia tirar o curativo, mas acreditou nas palavras do curandeiro que prometeu: iria cuidar das feridas. Em pouco tempo, seu coração estaria novo, pronto para amar novamente.
Balela. Curandeiro, coração, tudo uma farsa.
Coração ainda estava com feridas abertas. Curandeiro, com feridas passadas.
Feridas passadas que procurou passar. Uma maneira de aliviar, de transmitir, de pagar o mal com o mal.
Mais uma vez,  o tolo paciente acreditou e deu seu coração a sacrifício.
Pagou pra ver e mais uma vez... sofreu por amor.
O diagnóstico do cardiologista foi preciso. Era preciso arranca-lo e deixa-lo numa caixa com gelo por algum tempo, até que pudesse realmente se recompor.
E agora? O tolo paciente viveria sem coração por um bom tempo? E os amores próximos? Como amar sem coração?
Passou a amar com o cérebro. Passou a amar com a razão. A razão que fez com que amasse não amando. Com que quisesse e não querendo querer. Que se desse pela metade, sem esperanças, sem expectativas.
Um dia, o coração sairá da caixa de gelo, para voltar ao tolo paciente e para reaprender a bater dentro de um corpo. Até que venham as próximas feridas!

O diário de Mr. Jones.

Mr. Jones é um escritor atrapalhado que vive metendo os pés pelas mãos.
Todos os dias, ele postará seus pensamentos aqui.
Tive que emprestar um espaço a ele só para ele ir embora... não aguentava mais!

Elmo.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Filme barato.



E quando eu vi, já era amor!
E quando eu vi, já era um filme.
Um ser humano se desdobrando para amar e ser amado, passando por tolo.
Um ator que não sabia o que iria acontecer. Roteiro improvisado.
Da poltrona cômoda, você assistia a tudo. O drama era comédia.
E o meu amor foi virando uma loucura.
Loucura pra quem via. Realidade pra quem vivia.
E o amor virou monólogo, monótono.
E aos poucos, o sentimento foi de desintegrando...
E aos poucos, o filme vai sendo assistido em uma sala escura pra meia dúzia de pessoas.
Que esperam a próxima sessão sem saber que, o ator principal fez seu último e doloroso filme... de amor!

Elmo.

sábado, 3 de março de 2012

Dói.

Dói demais pensar em como tudo foi rápido e intenso. Rápido pra você, intenso pra mim.
Dói pensar que neste momento em que encharco meu travesseiro, você já esta em outros braços. Porque pra mim, ainda não terminou.
Não entrei por essa porta, enfrentei um turbilhão de emoções e julgamentos, para sair de uma hora pra outra. Eu quis entrar. Eu quis estar nessa casa, nesse quarto, nessa vida a dois, nesse monólogo que foi estar contigo.
As paredes que  aguentaram meus socos de ira, que sustentaram nossos corpos numa daquelas atrações selvagens... as paredes parecem se desmoronar a cada instante.
Esse jardim... por que está tão seco? Você não tem cuidado?
Se eu ainda estivesse aqui, poderia curar as suas feridas...cuidar das flores.
Doí...!
Pensar que enquanto ando só por essa rua esburacada, nossa cama serve de podium para o seu mais novo troféu.
Eu sento num meio fio qualquer para esperar a dor passar. Eu sei, ela estará de volta daqui há alguns segundos. Eu sei, estou me enganando, achando que passa de vez em quando. Não passa!
A dor não passa.
Por mais que vá embora alguns detalhes de tudo que fomos.
Por mais que o seu cheiro não esteja mais em mim.
A dor não passa. A doença não cura.
Dói pensar que o vazio que sinto só pode ser preenchido por você.
Que esse alimento que sacia minha fome também é o meu veneno.
É o que me mata lentamente e me tira o prazer cotidiano.
Doí. Olhar pra trás e ver tudo o que eu fui um dia, antes de te conhecer.
Olhar pra trás e ver tudo o que fui com você; um nada.
Tudo o que sou sem você ;um nada.
Tudo que sou pra você ; um nada.
Dói!

Dúbias dúvidas.

Será que o melhor é desistir?Aceitar que simplesmente não dá e que a vida prepara coisas boas para uns e para outros ela simplesmente não prepara nada?
Será que estou nadando contra a corrente, acreditando no inacreditável, vendo luz onde não existe frestas?
Será que me engano o tempo todo achando que sou forte e capaz, quando na verdade, sou apenas aquilo que eu e ninguém mais, pode ver?
Será que o melhor seja admitir que uns passam por provações pra no fim, receberem a felicidade, enquanto outros passam por provações apenas para perceberem que a sua vida se resume apenas a isso? Sofrer por sofrer...?



Elmo Ferrér

O sonho.

‎"Hoje eu queria te olhar nos olhos e te dizer que mais uma vez sonhei contigo. E que foi um sonho bom, como todos que tenho, como tudo o que lembro.
Me deu saudade da época em que éramos um, de nossas brincadeiras bobas, nossas danças loucas no meio da sala, nosso sexo em todos os cantos da casa. Nosso louco amor.
Somos tão parecidos, nos completamos de tantas formas, que foi difícil reconhecer o quanto eu te amava, por que por muitas vezes, te ver, era me ver. E por muitas vezes eu apenas me enxerguei em você, o que me fez ver o quanto você é perfeitamente imperfeita.
Talvez, eu deveria pedir pro tempo voltar e pras nossas horas serem eternas e eu pudesse reparar todas as falhas, tampar todas as rachaduras, te beijar mais, te abraçar mais, dizer mais "te amo", dançar mais com você sem se preocupar com o resto do mundo.
Mas eu entendo...! Existem coisas que não voltam e se voltam, reaparecem modificadas, esculpidas pelo tempo e pelas dores.
Hoje somos duas pessoas completamente diferentes e iguais ao que fomos um dia. Os olhos continuam sendo os mesmos, mesmo que mude o brilho.
A boca continua a ser a mesma, mesmo que mudem as palavras.
O coração continua sendo o mesmo e, o sentimento dentro dele,também. Mesmo que amortecidos pelo tempo."

Elmo Ferrér

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O homem.

Ele entrou na vida dele de maneira singular.
Entrou munido de palavras e gestos de amor.
Entrou lambendo as feridas, enxugando lágrimas.
Ele então imperfeito, cobrou perfeição dele.
Disse que não tinha voz, gestos, corpo de homem.
Humilhou, denegriu, excluiu.
Sumiu...
O tempo, senhor de tudo, mostrou a verdade.
Ele tinha corpo de homem e cabeça de moleque.
E dele, de quem disse que era menino, encontrou cabeça de homem.
Um homem que encontrou outro homem, de verdade.
Um homem que não exclui por ser diferente, que ensina a ser de verdade.
Um homem que sabe reconhecer que nem só de qualidades vive o homem.
Um homem, de verdade, um homem, na verdade, o homem, que ele jamais pôde ser.

E.F

Resquícios.

Tudo isso me modificou e o inevitável aconteceu.
Meu corpo e minha alma não andam mais juntos,
meu ser se olha no espelho e não se reconhece.
As batidas deixaram sequelas, talvez difíceis de cicatrizar.
Os que vem a mim, recebem o meu pior, não sei onde está o melhor.
Se foi com as falsas promessas.
Estão no meu travesseiro, na toalha de papel.
Desceu pelo ralo da pia.
Se perdeu no pensamento vazio.
Se foi... a esperança, as palavras, o olhar doce.
Se foi você, se foi...

E.F



domingo, 19 de fevereiro de 2012

O reclame.



O garoto perfeito também chora. E melhor: ele é imperfeito e faz questão de mostrar suas imperfeições.
Não gosto de mostrar fraqueza, não quero que o inimigo descubra meu ponto fraco, se bem que nem eu mesmo o conheço bem, pois, sempre que acredito que tenho um ponto fraco, sempre aparece um outro ponto fraco para me mostrar que aquele ponto ainda é forte, ainda se mantém forte, apesar dos pesares.
Toda essa pompa colocada em cima das pessoas bonitas e bem vestidas me incomoda profundamente, porque eu sei o que tenho guardado na minha máquina registradora cinzenta. E são coisas valiosas, mas que sempre serão deixadas de lado, trocadas por corpo, beleza e status. Não ousem discordar de mim, sei muito bem o que estou falando e você também.
Não é difícil saber o porquê da minha indagação. Nunca, jamais, em hipótese alguma, o público vai aos confins de um teatro de bolso assistir um espetáculo dirigido e escrito por um jovem brilhante, cuja idéias ainda não foram descobertas. Nunca o público descerá ao sub mundo dos talentos indescobertos se ele pode ter a miserável segunda opção de ir ver um espetáculo onde o elenco inclui globais, ex-realits ou é dirigido por diretores famosos que não fazem nada além de maquiar aquilo que já fizeram ou que já foi feito por alguém, mas, que pelo nome e toda pompa que envolve, leva milhares e milhares de espectadores ao teatro para ver o batido com cara de novo.
Enquanto isso, um jovem cheio de idéias agradece o encontro das palmas de seis ou sete pessoas que entram no teatro pequeno para ver o grande.
De um lado, os pequenos que vêem o grande. Do outro, o pequeno que é visto pelos grandes como grande.
Lendo uma reportagem sobre o Stven Jobs, eu fiquei encantado pela maneira que ele conseguiu, aos 24 anos de idade, fundar uma empresa e ser bem sucedido e mesmo com as quedas, conseguir se reerguer e ser mais brilhante do que já era, do que pensavam que podia ser. Simples: Jobs veio de uma época onde o talento era realmente necessário, onde você era reconhecido por saber fazer e bem recompensado por isso. Hoje é completamente o oposto. Parece que quanto mais você sabe fazer, menos você é recompensado financeiramente por isso. E não é difícil entender minha colocação: Uma jovem é hostilizada numa faculdade por usar um vestido curto, outra, glorificada por que mora no Canadá, outra por que ganha um programa de TV e por ai vai. Em menos de um mês, estão ganhando o que um excelente artista ou professor ganha em um ano. Então você vem e me diz: - Ah, mas o sucesso delas é passageiro. Sim. Mas a questão levantada aqui não é o sucesso e sim, o reconhecimento. Muitas vezes essas pessoas são mais reconhecidas como profissionais do que quem investiu a vida inteira para ser o melhor. Voltamos na questão do sucesso passageiro... e também voltamos lá em cima, no começo deste texto, no jovem sonhador que luta para levar uma peça ao palco com seus próprios recursos em um teatro de bolso e de uma celebridade instantânea que estréia em uma sala de teatro glamorosa do outro lado da cidade.   Isso não é passageiro. A peça que o jovem montou e que não teve público nem crítica nem nada e que, possivelmente não será mais montada, não é passageira. Ela ainda será o motivo de muitas indagações deste jovem sobre suas perspectivas de futuro. Ela ainda será o motivo da discordância familiar a cerca de suas escolhas, ela será ainda, motivo de elogio para os sete espectadores-familiares-amigos- do começo dessa história.
O que falo aqui senhores, é sobre a banalização do talento e a valorização do supérfluo. No fundo, todos criticam as novas celebridades, mas neste momento, um crítico de teatro que poderia estar em um teatro de bolso vendo uma peça feita por um grupo amador, está em uma grande sala acompanhando a desenvoltura de um ator-atriz-modelo-dancarina e ex-alguma coisa, para daqui há uma semana colocar em primeira capa e vender revista.

Elmo Ferrér.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

E o gato borralheiro mais uma vez se apresenta no palco das ilusões...



Mais uma madrugada eu sem saber o que fazer, meio sem rumo, meio sem nexo. Fechar os olhos e encostar a cabeça no travesseiro parece uma solução, mas ao mesmo tempo, se transforma em dúvida, do não saber se, ao fechar os olhos, eles se abrirão novamente.
Na verdade, me sinto de olhos fechados há muito tempo. Olhos fechados para a realidade que esta a minha frente e eu, meio “belo adormecido” não consigo, ou não quero acreditar.
O que me tira o sono a cada dia, é a idéia ou conclusão de que, o mundo ainda é extremamente pequeno para mim e ao mesmo tempo muito grande, cheio de possibilidades e coisas, lugares a ser explorado. Talvez o meu lugar seja pequeno, a minha casa, a minha cidade, o meu corpo.
Mas a idéia de que posso ir muito mais longe do que estou, essa sim, é a grande causadora das minhas insônias. Não me conformo em estar aqui as 01:00hs da madrugada deitado em uma cama... eu podia estar criando, explorando, descobrindo esse mundo pequeno-grande.
Essa insatisfação ora é boa ora é ruim, porque tem o poder  de me fazer crescer ou acordar para o fato de que talvez não haja crescimento, talvez eu não seja tão bom quanto penso e o mundo já tenha percebido isso, menos eu. Talvez eu não escreva assim tão bem, afinal, existe tanta gente escrevendo neste país, no mundo, quem dará foco a um rapaz escondido nos confins do centro oeste? Numa cidade que teria tudo para ser um grande pólo de cultura mas caminha rapidamente para o ostracismo cultural?
Quem sou para querer chegar mais longe do que posso, contrariando toda a profecia de vida lida e relida para mim por toda a vida pela minha família?
Bem, eu respondo. Meu nome é Elmo de Almeida. Eu sei quem sou e sei onde quero chegar e sei que esse é o meu grande dilema. Eu sei onde quero chegar, sei por qual estrada seguir, mas parece que as pedras e as cercas que atravancam este caminho ganham força a medida que caminho e uma força inexplicável, um vento forte desfavorável, me faz sempre recuar para trás, me levando e me colocando em um espaço onde não quero estar. Onde não quero ficar.
A vida é dura. É difícil ser árvore quando você nasceu para ser mar.

Elmo Ferrér

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Monólogo da atriz narcisista.


*conto em duas partes

Por: Elmo Ferrér

(...)

Palmas. As cortinas se fecham e Elizabeth vai pro seu camarim. Tranca-se, solitária. Em frente ao imenso espelho, começa a tirar o figurino de sua personagem e em seguida a maquiagem.
- Senhora Elizabeth. Tem um fã querendo cumprimenta-la.- disse um dos contra-regra.
- Diga a ele que espere. Sabe que não falo com ninguém enquanto estou na personagem.
- Disse que é jornalista, não pode esperar muito.
- Tudo bem, mande-o entrar.
Ela ponhe agilmente um roupão e senta-se em sua cadeira negra, com ar de diva.
- Elizabeth Montevidell?- disse o jornalista apenas com a cabeça para dentro do camarim.
- Entre!
- Meu nome é Carlos Arantes, sou do "Diário de Notícias".
- Sim, sei bem quem é você. O crítico de teatro. Assistiu ao espetáculo?
- Certamente. Gostaria de entrevista-la, é possível?
- Não gosto de dar entrevistas, mas abrirei uma exceção para o senhor.
- Acho que é importante porque o seu espetáculo não esta sendo muito assistido e...
- Veio me dizer o que já sei?- disse, seca.
- Bem. Ao que a senhora credita a falta de público no seu espetáculo?
- A falta de cultura desse povo que só se preocupa com realit show e cultura pobre, em massa.
- Bem, mas bem sabemos que existem outros espetáculos pela cidade e, em sua maioria, bem vistos e aplaudidos por público e crítica.
- Normal! Os outros espetáculos tem em seu elenco celebridades da tv. Pessoas que nem sequer sabem o que é teatro e fazem peça para se auto promover. Senhor... o público não aprendeu ainda a assistir aquilo que realmente é bom. Eles querem saber do que é sucesso do momento. Em outras palavras: deem bananas aos macacos, se é isso que eles querem!- ela se vira para o espelho e continua a tirar a maquiagem.
- A senhora não acha que pode ser pelo fato da senhora não fazer mais sucesso e não ser chamada para mais nenhuma novela, filme, seriado e programas de tv? Existem boatos de que a senhora aceitou fazer esse espetáculo porque esta em fim de carreira.
Ela vira rapidamente.
- O senhor veio aqui para me afrontar? Me difamar? Ponha-se daqui pra fora!- ela se levanta e sai. Ele vai atrás, pelo corredor.
- Mas, senhora... não digo nenhuma mentira. Quem assistiu ao espetáculo, isso é, as nove pessoas, dez comigo, percebeu que a senhora já não está mais em condições de estar nos palcos.
Ela para, vira-se e olha profundamente nos olhos do jornalista.
- Quem pode dizer sobre minhas condições sou eu, seu "jornalistazinho" de jornal de limpar a bunda. O senhor, como as outras nove pessoas que estavam na plateia vieram aqui para tripudiar, para assistir meu espetáculo e depois sair por ai falando mal. O que vai ajudar a vender muito jornal e render quem sabe um aumento para o senhor, não é? Esse tipo de imprensa marrom não me interessa. Quem entende de arte, de teatro, sabe que o espetáculo é primoroso.
- Mas não estou dizendo que o espetáculo não seja primoroso. O texto é muito bem escrito e a direção é muito sinuosa, um belo casamento estético principalmente. Os outros atores também estão muito bem. Mas sinto dizer que talvez a falta de sucesso desse espetáculo deve-se a senhora. Uma atriz conhecida por não ser muito popular, que teve sua boa fase nos anos 80 até meados dos anos 90, mas que hoje, não é ninguém.
Ela lhe dá um tapa na face.
- Ponha-se daqui pra fora. Idiota!
- Pode saber que tudo que aconteceu neste corredor será colocado em primeira página.
- Dane-se! Aproveite e convide os seus poucos leitores para assistirem o espetáculo de amanhã.
Ela dá de costas e entra no camarim. Olha-se no imenso espelho a sua frente e vai até ele, devagar.
- Quem já foi rainha, nunca perde a majestade. Esses abutres verão que o show não acabou. Ninguém vai sair por ai falando de mim. Eu sou uma diva! Uma das melhores atrizes que esse país já teve. Não posso ser humilhada dessa maneira, servir de pano de fundo para texto, direção e pra esses "atorezinhos" de merda que dividem o palco comigo. O público gosta mesmo é de um bom circo! Esperem o próximo espetáculo.

continua...