sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Ruas- Poetas esquecidos- Final

Rosa vai até o sinal fechado.
ROSA-         Olhem bem... vocês, que estão ai dentro do luxo dos seus carros, vocês que mal sabem o que é passar necessidade, que mal sentem fome, ou, quando sentem, vão a uma lanchonete qualquer e enche o bucho... nós somos artistas, atores, de teatro. Viemos do interior tentar a vida aqui. Vocês sabem o que é isso?
O sinal apita.
         ROSA-         Não sabem. Nem mesmo se importam não é?
Sai de volta ao acostamento.
         LUA-           Alguém jogou dez centavos.
         ROSA-         É o que vale a cultura para eles.
CHICO-        Cultura? Quem te viu ali , não viu cultura Rosa. Viu uma pobre morta de fome que vai encher a barriga com alguma coisa que valha...dez centavos.
LUA-           Quem acha que se come com isso?
CHICO-        Quem não precisa. Quem joga fora não sabe o valor que dez centavos tem.  Acho que um tomate da pra comprar.
ROSA-         A que ponto chegamos...
CHICO-        De que ponto saímos?
LUA-           Ninguém percebe que somos três jovens querendo apenas fazer arte de maneira digna?
CHICO-        Não. Ninguém percebe. Sabe o que eles percebem? Percebem aqueles que estão lá, no mais lindo palco, com a mais linda roupa, a mais linda maquiagem, cobrando caro por algo que muitas vezes eles podem ter de graça.
LUA-           Eles sim, são artistas. Nós somos apenas vagabundos.
ROSA-         Vagabundos.
CHICO-        Vagabundos.
ROSA-         Abriu.
LUA-           Quem vai?
CHICO-        Ninguém. Dessa vez, ninguém vai. Vamos ficar sem ir um tempo. Esse é nosso protesto. Quem sabe alguém sente a nossa falta?
Os três se olham e riem.
TODOS-       Vamos todos.
                  Todos vão ao sinal e fazem uma performance. O sinal toca, os três estatizam e a luz fecha.




quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Artigo de um escritor que não acredita na palavra amor.

 Artigo de um escritor que não acredita na palavra amor.

            Eu acho tão patético esse termo :“amor”. As pessoas usam isso de uma maneira tão ...descartável. Palavra patética. Não. Não me peça para lhe dizer: - Meu bem, vamos tomar um sorvete. Ou quem sabe: - Mô, quê que você sente por mim? Acho isso tão brega, tão cafona. Esses termos literalmente não servem para mim. Não me vejo dizendo isso em nenhuma hipótese. Não sou contra o amor não, como você já deve está pensando. É que vejo a vida por um ponto de vista mais prático. Pra quê dizer tudo isso se no futuro essas palavrinhas medíocres serão completamente banidas do seu vocabulário? Daqui a uns, sei lá, cinco anos, você mal vai olhar na cara da sua mulher. Seus filhos chatos estarão gritando na sala, vão bater um no outro e depois começar a chorar, enquanto você estará na cozinha tentando trocar o gás,  a sua mulher gorda xinga que a panela tava pegando pressão e o feijão vai ficar duro. E então, você olha na cara dela e pensa nas palavrinhas lindas que ela dizia no começo e que hoje, foram substituídas por :  Você não tem dinheiro para nada, as crianças precisam de roupa, eu não tenho tempo para arrumar minhas unhas, tô parecendo um monstro - e realmente está, mas você não fala isso para ela pra não piorar a situação-  dentre outras coisas que não vale a pena registrar.
            Eu sei, você vai ler esse artigo e vai dizer que eu não tenho sensibilidade e que sou pessimista. E sou mesmo. Ah... também, como não? Ora! Não fui criado para esse negócio de amor. Sou fruto da relação daquele casal frustrado do começo da história, que me criaram para ser capitalista, para trabalhar e casar, para viver como eles e ter os filhos que eles tiveram. E eu juro: tentei.
Conheci  uma garota a uns dois anos atrás. Foi numa balada que fui meio à contra gosto com o pessoal da faculdade. Sabe, nunca gostei de balada, de agitação, acho isso tão medíocre. As pessoas vão para a balada para tentar arranjar alguém e saem de lá achando que encontraram a pessoa da sua vida. Mal sabem que essa é apenas mais uma balada e que depois virão outras, e outros. Bem, como dizia, conheci uma garota, Andrea. Achei ela bonita , gostosa... – é sempre tudo a mesma coisa-  claro, como foi minha primeira vez numa balada, achei o que todos acham,  que ela seria a mulher da minha vida. Mas nosso diálogo se restringiu a:
- Qual seu nome?
- Andrea.
- Você vem sempre aqui?
- Sempre!
- E você tem namorado?
- Vamos parar de conversa? Sou puta meu filho. Puta! E ai, vai ou não?
Não, não fui. Quer dizer, fui. Pra casa. Acho que a noite deu o que tinha que dar. No fundo eu queria ter ficado com a Andrea, mas estava duro. É.. eu estava duro e não fiquei com ela. Paciência.
Essa foi a minha última experiência em tentar amar uma mulher. Claro que houve as da infância, adolescência. Mas sempre uma frustração. Sempre fui o patinho feio sabe? Não que deixei de ser, mas hoje, estou mais pra ganso...
Sabe... eu decidi  que não preciso de amor para viver. Preciso apenas de um papel e uma caneta, ou uma máquina. Quando quero sexo pago. Quando quero que alguém me escute, escrevo, e ta tudo bem. Sério. Eu sei que você deve estar pensando que eu sou um revoltado. Não sou não, juro. É que vivo na realidade. Existem duas pessoas em mim. A de fora, é essa que você acabara de conhecer. A de dentro, as pessoas só conhecem por pseudônimo. Muitas pessoas se apaixonam pelas minhas histórias e meus personagens e então, supõem que sou um romântico apaixonado. Mal sabe elas que escritores são assim, uma fusão de várias pessoas, vários sentimentos, gênios incompreendidos...
Mas ,continuo na minha teoria, que no fundo  também é prática: Não acredito nesse negócio que os homens chamam de amor.
Bem, termino aqui. Tocaram a campanhia, deve ser a Andrea. É ela mesma. Volta e meia a gente se encontra para uma noite de...amor.
                                                                                                          M.J 

Ruas- Poetas esquecidos- Parte II

Ao colocá-la no chão, os dois se olham por um tempo.
         CHICO-        Ta com fome?
         ROSA-         Não. Você tá?
         CHICO-        Não.
ROSA-         Você ta sim Chico. Seu olho não mente. Seu corpo não     mente. Tenta ver se consegue algumas moedas no sinal. Explica nossa situação. Alguém deve ajudar. Ontem consegui três reais, hoje que a maré não tá muito pra peixe.
CHICO-        Essa noite sonhei com a mãe. Ela tava usando aquele vestido...de rosas coloridas.
ROSA-         (abre a sacola de plástico cheia de tecidos velhos, tira de lá, um vestido amarrotado). – Esse? Pegamos sem que ela soubesse pra fazer a peça...
CHICO-        Como será que ela tá?
ROSA-         (olhando para Lua)- Cansada...com fome...
LUA-           (levanta, olha os dois. Olha para as flores, ranca uma pétala. Come.)  - De fome não vamos morrer...nunca!
ROSA-         Fechou. Você vai?
CHICO-        Não...
ROSA-         Vai lá...explica nossa situação. Pede por favor, pelo amor de Deus. Fala que estamos aqui a mais de quatro meses, que não temos abrigo, que temos que comer restos. Que muitas vezes reviramos lata de lixo pra ter o que comer...
CHICO-        (cortando, alto)- Não! Não vou. Não vou, ouviu? Se quer vá você mesma. Passo dias e dias nessa merda desse sinal, embaixo de sol quente, de chuva grossa, e nada acontece. Não vê que nada acontece? A fome vem, a força vai, os sonhos morrem, a esperança...
LUA-           E a arte?
CHICO-        A arte? Que arte?
LUA-           A arte de sobreviver a cada dia.
CHICO-        Foi ela que nos trouxe pra essa cidade...
ROSA-         A gente comia arte... Mas, infelizmente, é uma comida que nos saciou por um tempo, mas hoje, mal dá para enganar o estomago.
CHICO-        E de pensar que algum dia alguém disse que a Arte é pra comer. Hoje, eu acho que é para morrer...de fome.
ROSA-         Vou lá. Alguém vai ajudar.
LUA-           Cê ainda acha?
ROSA-         E fazer o quê?

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Ruas- Poetas esquecidos- Parte I


Prólogo:
Barulho de carros, sirenes. Vê-se em cena três personagens. Chico, Lua e Rosa. Vestem roupas coloridas e tem maquiagens borradas. Encostados nas paredes ou deitados no chão, mostram ar de cansaço. Devem segurar flores murchas, fantoche rasgado, descalços. Chico olha pro céu, Rosa pro chão e Lua para as flores.
         CHICO-        Fechou?
         LUA-           Desde que sentamos, cinco vezes.
         CHICO-        E vocês nem para levantar e ir.
ROSA-         Não sei se me falta coragem ou força. Talvez, fé. Estou cansada. Meu corpo pesa. E ele está tão leve... só tem alma.
         LUA-           Vai fechar. Alguém vai?
         CHICO-        Vai você agora. Eu e Rosa fomos os últimos a ir.
         LUA-           Minha esperança morre e nasce a cada três minutos.
         CHICO E ROSA-    Fechou!
Lua sai correndo, para em frente a platéia, observa. Levanta as flores com dificuldade.
LUA-           Flores colhidas do mais belo jardim. Presenteie sua mãe, namorada, noiva, mulher. Toda mulher adora receber flores. Quem não gosta não é? Quem não gosta de um carinho? De ganhar presentes? Quem não gosta?
Lua observa a platéia, vai mudando a feição. Com ar de tristeza, olha para as flores.
LUA-           Estão murchas. Não conseguiram resistir muito tempo. Não ha flor que fique viva por muito tempo sem que esteja plantada ou dentro de um copo d’água. As flores tem vida curta.
Ouve-se o barulho do sinal indicando que será fechado.
LUA-           Em qual jardim fui plantada até ser arrancada bruscamente pelo desejo de não mais ser flor, de não mais querer ficar presa em uma estufa vendo tempo passar? HÁ quanto tempo não sou mais regada...
Abre os braços.
         LUA-           As flores tem vida curta.
Lua deixa o corpo cair. Buzinas de carro. Chico e Rosa correm para retirar Lua do local onde está posicionada.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Quantas coisas...

Quantas coisas eu disse sem querer dizer?
E quantas vezes eu te pedi para ir?
Mas não, você sempre quis ficar.

Você sempre se comportou da maneira mais errada.
Mente, arma, cria sempre sua história.
E eu pergunto: até quando você vai ficar?
Até quando ficará em minha memória?

Um fantasma, um pesadelo sem fim.
Tudo que eu queria era te esquecer
Mas você não sai de mim
Você não quer morrer.
(...)
Ou sou eu quem não quer te matar?

Anjo.


Anjo,
Me da seu sorriso nesta manhã,
Me acorda com um beijo suave
Faz com que eu me sinta vivo.
Traz para mim as flores que plantou
Canta para mim aquela canção
Fica sempre aqui, comigo.
Anjo,
Seu olhar é meu caminho
Sua alma é minha morada
Sua voz é minha música
A canção que me acalenta.
Anjo,
Fica comigo só por hoje
Lê para mim os poemas de amor
Que escreves sempre tão bem.
Anjo,
Me cubra quando estiver dormindo
Me guia na escuridão
Enxuga minhas lágrimas.
Anjo,
Põe doce em minha vida
Me banha com sua chuva prateada
Me ouça, me olhe, me leia.
Anjo,
Sinto muito a sua falta
Preciso de você aqui
Vem me tirar do abandono
Vem velar meu sono.
Anjo,
Vem me fazer dormir.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Novelo.

Aqui estou eu, em pé, olhando o pôr do sol.


Pés na água. Água do mar.

Um passo para frente.

Imagens.

Queria pegar o novelo que se transformou a nossa vida e desenrolar.

Queria dar um ponta para você segurar,

eu, seguraria a outra.

Então, como num compasso bem marcado, começariamos a enrola-lo novamente.

Outro passo para frente.

Enrolaríamos até nos encontrar.

Nessa hora poderia tocar a música que fez parte da nossa vida.

Poderia também chover, chuva é sempre bom. E fazer frio, muito frio.

Faz frio agora. Mais um passo para frente.

Poderíamos nos abraçar. Ou nos estapiar.

Poderíamos falar das mágoas, relembrar os bons tempos.

Poderíamos nos beijar no fim.

Passo para frente.

Poderíamos sair, nos amar,

poderíamos nos despedir e nunca mais se ver.

Poderíamos sair e ficar juntos para sempre.

Um passo para frente.

Você me quer de volta?

Dois passos para frente.

Eu te quero de volta?

Três passos para frente.

Nos amamos ainda? Você me odeia? Você me ama? Eu te amo? Eu te odeio?

Um passo para trás.

Tenho coragem?

E as promessas? E os risos? E os momentos?

Tenho coragem. Dois passos para frente.

Água na cintura. Já posso me afogar? Deixa eu ver o pôr do sol primeiro.

Pensamentos, pensamentos, pensamentos.

Acabou o pôr do sol.

Pensamentos, lágrimas, risos.

Eis as estrelas, eis a lua enorme a surgir na minha frente.

Vou para ela.

Não dei nenhum passo. A água está quase no pescoço. Meu corpo balança com as ondas. Não sinto mais nada. Caimbra.

Quanto tempo passei aqui?

Quanto tempo esperei você aparecer e me pedir para desistir?

Meu corpo balança. A lua me chama. Espero mais um pouco?

Eu cedo.

O mar me leva.

Água, imagens, água, imagens.

O mar me leva, você não veio.

Eu flutuo. A lua se aproxima.

Quando quiser me ver de novo, puxe a linha do novelo.

Estou com uma ponta.